tarde de sol na terraza
coca-cola, helado, mundo girando porque a tequila tava ainda no corpo da noite anterior, cintia, thomaz, fora da dieta, lua chegando, me despedindo suavemente de Murcia, vida boa, linda, egoísta.
Damiana… eu trouxe de amsterdam. Erva delicinha free of cannabis. 
Mas que… faz-me reir ainda mais.
Obs: Se tu faz chá diz que… te deixa um delicioso erotic mood. ahahaha Nao paguei pra ver.
Eu e o Thomaz passamos quase 48h juntos sem parar de conversar. Viva a lingua portuguesa e a capacidade de se expressar com a lingua-mae.
Comecei o post na praça. Agora to em casa… nao tem gás, nao tem isquero… mas tinha um fósforo, um. E uma vela… e mais damiana. Tem beirut no som…
Nao sei se é a roupa que eu coloquei hoje, ou se é porque meu peito tá maior em funçao dos quilos que venho ganhando (e também as vezes perdendo). Se é porque sinto a calça jeans um pouquinho mais justa, e quando passo a mao na minha cintura sinto que dei uma encorpada. Tem também a coisa do sutia marcar gordurinha nas costas… e que finalmente tenho celulite na bunda. A coisa é que hoje eu desfilei pelas ruas de Murcia me sentindo uma supermulher de 30 anos. Com minha blusa de renda branca, uma camisa jeans e um jeans preto desajeitado pra fora das botas um pouco masculinas. Meu cabelo meio voando eu olhava pelo reflexo nas vitrines tentando entender minha imagem ali, quem era eu. O sol que vinha e voltava na praça me fazia sentir muito viva. A sensaçao de estar me despedindo da cidade e finalmente voltando pras ruelas de Barcelona deinitivamente só com as malas nas maos e uma conta bancária considerável ainda que super limitada e arriscada me faziam sentir a sensaçao filhadaputa da liberdade. Da idade. Da saudade. Da vontade. Da ansiedade. Da curiosidade mórbida do que vem pela frente de novo. O med se foi eu acho. Acho que até tô gostando das celulites e da necessidade de fazer dieta. Aliás, vou revelar algo aqui. A Cintia algum dia vai ler isso, e definitivamente… nao vai curtir. Mas Ci, eu peguei o “Comer, Rezar e Amar”… e também na busca pelo prazer, ainda que na España e nao na Itália, me entreguei de novo ao Café Antártico do Café Martinez, da Plaza San Domingo. Uma camada de chocolate, na base. Depois leite condensado. Aí vem o café. E a nata doce fofa, para arrematar o suicídio corporal. E nem me arrependo, essa manha mesmo levei um daqueles tapoesnabundasurpresa com sorrizinhopestanaarriba. ahahahah
Essa seria uma das formas que queria começar o texto de hoje. Mas tem outras. Esse trajeto piso-rodoviária-tchau pra cecilia-plaza-piso me torturou com as ideias. Tive que levantar meio correndo do café pra vir pra casa: uma que o vento ia me levar, outra que minha cabeça nao aguentava mais guardar tanta expressao. Eu precisava contar tudo. O carnaval “solteira livre pra pensar” resultou em um tempo pra me reencontrar passarinho, mas nao pensei em nada. Ali, viajando com as gurias eu já começava a me sentir com 30 anos.
- Tus ojos tristes de nuevo. No los comprendo. ¿Qué pasa en tu cabeza, chiquita? Ahora estoy bien. Vamos! Tenemos nuestras ciudades como tu me has dicho. Madrid. Barcelona. Te acuerdas?
- Lo sé. Sabes que soy un pocomucho nostalgica. No lloro por estar triste, es solo que…
E na minha cabeça, enquanto eu queria meter a mesma no travesseiro e chorar por 7 dias e bicas e rios, passava o grande piso, o início, quando eu via ele sentado no sofá com os guris e ele ainda era o companheiro de piso do Loic e nem tinha nome. Eu sempre tava de pijama escrevendo artigos pra universidade enquanto eles bebiam e se preparavam pra sair. Foi quando os primeiros olhares começaram. Nao se trata de uma pessoa, ou de mim, agora. Se trata do contexto, do que a gente fazia naquela época. Do que eu fazia antes de ele ganhar um nome. Parece que faz tanto tempo. A Eva ainda ali, nós duas programando as viagens, totalmente loucas e livres e ingênuas nos próprios sonhos… e tudo parecia tao longe de acabar, ou de começar. Os almoços na terraza ensolarada e as tardes na habitación con musica y café. Lembrei de algumas pequenas aventuras e algumas borracheiras que tomamos juntos nesse últimos dias. A terraza sem estrelas, o elevador do 0 ao 15 três vezes, o salao do apartamento (meu atual quarto), a espera pelas aulas da Cintia. As velas compradas no chino - nosso apê novo tem consecutivas quedas de luz geral. Foi assim que eu virei um pandinha com rímel por toda a cara. Eu chorava de saudade, de agradecimento, pela vida que eu e aquela galera do caralho vivemos no ano que passou.
Meio-dia. Despetador nao funcionou, claro. Acordar no susto. Hoje eu pensei, maldito ônibus pra Madrid da uma da tarde. Eu podia larvar o dia inteiro contigo. Longe de ser um relato erótico, aunque pareça…
- Todavía ueles muy bien.
- Ah, sí? Vanilla?
- Sí.
- Te acuerdas del regalo que Eva me ha dejado junto con el pantalón? Es lo que llevo desde aquel día… A mi ahora es olor de larva.
- Tengo más 5 minutos. Y quiero hacer una cosa.
Quando alguém te pede se pode tirar a própria blusa porque precisa fazer uma coisa, nesse caso, é sinal de que quem sabe exista algo além do tangenciar relacionamentos. Esse tipo de resoluçao simplista e generalista é meio típico de criança e nao combina com a mulher da blusa de renda branca, mas ok. Eu queria só por 2 minutos sentir com a pele pra gravar isso. Ele pediu. E me abraçou. Agora que tu vai pra Barcelona e depois do que a gente conversou sobre as tua ganas de cigana… queria me despedir. E se despediu. Eu fiquei meio atônita ali sentada enquanto escutava o som da porta abrir… e finalmente fechar. Como será que é amar? Deve ser massa pra caralho. Aí eu dormi. E acordei com o coraçao cheio de alegria e com a cabeça cheia de planos difusos.
Hasta algun día.
“J’ai les méninges nomades
J’ai le miroir maussade
Tantôt mobile
Tantôt tranquille …
Je dis aime.”

Assim que terminei de escrever o ultimo post nos levantamos finalmente e saimos de tapas. A rua cheia, cheia de gente bebendo, comendo, vivendo, españa.
Um conversa, ele pediu pra sair, queria fumar um cigarro. Eu esperei e assim entao realizei o peso das minhas palavras. Fomo no Iberos, um bar amado que tem amstel quinto por 0,50 centimos. Green Eyes, Coldplay, começou a tocar. Nao era obvio, nem de perto, mas chorei. E abracei muito aquele amado. Tudo remete ao dia 6 de fevereiro, quando a Eva foi embora, quando ele perdeu o bus pra Madrid e ficou. Nao sei se eu tava pedindo desculpas, se eu tava me despedindo, se eu tava dizendo fica por favor ou vai pra sempre nunca mais.
Veio segunda. Ele pediu pra sair, queria fumar um cigarro. De noite voltamos pro Parlamento. Definitivamente eu to viciada. Uma botella de vino da casa, una ensaladilla, los jamones… Me apoio com o braço na bancada que se rompe e quebro os pratos no chao. Mas consegui, com o canto da mao, segurar meu copo de vinho apoiando contra a parede. Quase metaforico. A garrafa tava no final… mas o caras sao tao gente boa que botaram outra. E shots de vermut. E… sai tropeçando os pezinhos. Tentamos encontrar o bar que vende cerveja belga, tava fechado. Tentamos comprar agua de murcia, uma cachaça daqui, tava absurdamente caro. Ok. Uma passadinha rapida no Iberos pra mais uma cervejinha, porque a gente bebe pouco aqui. E… por uma proposta quase indecente… ver as luzes no terraço, 15 minutos depois de sair do ape, quando restavam 10 pra 1 - um tempo relativamente demasiado pro trajeto - ele volta dizendo que tinha perdido o onibus, de novo. Rindo me perguntou se eu ia explicar isso no blog tambem. Alias, ele nao sabe a direcao, disse que eu devia ter meu jardim secreto. Ainda penso nas 5 tags que ele me questionou. Resume Murcia em 5 palavras ou sentidos ou sentimentos ou … Bah. Umas 3 eu tenho certeza. Um delas e “larvar”. E larvar encerra o ciclo Murcia.
Agora mesmo eu to em Sevilla. Passei a noite no aeroporto de Alicante esperando o voo que partia as 6 da manha. O filho da puta da ryanair me cravou. Barrou minha mochila toda fudida e me fez faturar. 38 euros. A passagem foi 7. De rir ou chorar, ainda nao sei. Agora nem uma das alças ta costurada mais, porque ele cuidam das malas como cuidam das proprias caras. De cu, pra ser preciso. O povo español, en general, nao e muito gentil na area de prestaçao de serviços, mesmo que se pague bem. Carregando tipo saco de batata, tenho caibra nas maos. Da igual. O cafe da manha me deu vontade de chorar. Num boteco tipico español no centro da cidade. Como eu amo tudo isso. Como eu amo voltar pra alguma cidade. Como eu amo esse pais. Como essa merda de “chorar” voltou pro vocabulario… A madrugada foi confusa, mas passei lendo um livro que caiu nos meus pes na rodoviaria de Murcia e comendo cereal. Eu dobrei as orelhas do livro pra fora, pra tapar o nome do mesmo. Quando tu ve um titulo “Primeira vez”, nao se bota muita fe. Confesso que fora de contexto, teria vergonha dele. Ninguem pode adivinhar como me deparei com ele. Acidente. Mas ok. Fala de primeiras vezes, uma compilaçao de relatos e historias mais que divertidas, e bizarras, e as vezes tristes. Queria muito poder escrever ali. Alguem ia rir, seguro. Nao preciso chegar aos 40, como eles comentam, pra enxergar com doçura e diversao o momento (alias… foi realmente um momento? ahahaha), ainda que super raro - no sentido castellano mesmo. Mas falo disso nao pelas citadas ejacuaçoes precoces e transas embriagadas num telhado, mas porque tem uma parte que diz… “escrever de si… exibicionismo ou poesia?”. A pergunta teve efeito. E, quizas, serviu o chapeu. Penso nisso agora, nesse blog, dessas memorias. Agora tenho uma vontade maluca de nao esquecer de nenhum detalhe e me da uma afliçao se tento voltar em alguma viagem e nao sinto os mesmo arrepios que senti no momento. Quanta teoria, quanta ideia tivemos eu e Eva a caminhar pelas estreitas calles españolas. E.. cade? Em algum lugar dessa cabeza junto com as playlists da vida de aqui.
Cheia de tanto comer naquele aeroporto, no fundo eu ainda tinha alguma fome, ou ansia. Quando fui cortar mais um pedaço de pao e abrir outro atum… ring ring, uma mensagem. “It’s a big bad world, full os twists and turns ans people have a way of blinking, and missing the moment that could’ve change everything”. Larguei o pao, peguei meu saco de dormir e fechei os olhos. Doeu tudo por dentro, mesmo que eu nao tenha conseguido contextualizar tudo isso. Era hora de pensar no carnaval, na alegria, nas cores proximas de Barcelona.
Volto pra cidade, pra fazer checkin, pra tomar um banho, tirar o po do casaco que arrastei sem querer por todo aeroporto. Espero que o atum nao tenha estourado dentro da mochila. Definitivamente nao esperava que iam levar minhas coisas no bagageiro, nem o tufo dos 38. Por sorte pude recuperar minha camera. E continuar com os 5 casacos que levava, e ainda levo, no corpo pra poupar espaço pra caber naquela bagaça de cestinha azul que eles te fazem meter a mala de mao pra nao pagar faturaçao.
Alias, sair sozinha pela cidade… e tipo um reencontro com a Bruna que se transforma sem sindrome de peter pam. Exibicionista ou… tentando ser um pouco artista num pedaço de 0000s e 11111s?
Agora mesmo tem um aficcionado pelo Marseille assistindo um partido roendo as unhas freneticamente no sofá da frente. Agora mesmo ele me interrompeu pra me olhar com uma carinha de morder dizendo com españolpuxandoumfrancês… “jugamos muy mal hoy…”. E me abraça, e quase senta em cima do note. Desastrado. Já vem uns meses que a vida nao é a mesma. Ou parece meses. Na real faz… hoje exatamente um mês. Um mês que a Eva foi embora, um mês que deixei o antigo piso. Um mês que dormi pela última vez naquela habitación de puta madre. Que vi a Lauren se adonar dela com seus quilos de roupa de inglesa brega, sapatos de glitter e a porra da faixa de “cheerleader do ano”. Que liguei chorando pra minha mae pra dizer que tinha deixado um pedaço meu na rodoviária, mas que tinha alguém me esperando em casa. Ela riu, e disse.. vai com Deus, filha, só por favor, nao se apaixona e volta pro Brasil.
Nao sei se eu tô namorando uma pessoa ou uma situaçao. Mas definitivamente é algo mais que novo na minha vida. Nunca passei tanto tempo de um dia, ou de vários, tao… cerca. E sem saber o que sinto a respeito disso. E nao estar nem aí. Parece que eu me vejo de cima. Sou eu? Bru? Eu pulei, me atirei porque definitivamente eu nao teria nenhuma responsabilidade sobre ele. Ele é mais passarinho que eu… e agora, tem gente pedindo gaiola? Eu tô quase pendindo pra sair… Madrid-Murcia-Madrid. Isso vem acontecendo há algumas semanas. Só um mês. E a carinha que vi em Paris, que vi alguns finais de semana depois das férias de Natal… nao é mais a mesma. Me sinto em casa agora. Eu nao sou mais a chica de Brasil, ele nao é mais o cabrón que eu tinha medo.
Eu fico narrando pra Cintia o tempo todo pequenos passos do que passa. De verdade, é muita novidade. Eu vejo que ela ri por dentro, com carinho, e como quem sabe do que eu falo. Sinto que ela se sente feliz por mim, ou melhor, por eu estar passando por essas coisas tao…básicas. Todo mundo já fez isso com 15 anos, ou antes, na pré-escola. A Eva se surpreendeu quando contei, quando ela nos viu tranquilos. É que viajamos todos juntos prum reencontro frança-belgica-romenia-brasil em Bruxelas e Amsterdam. Mas isso é outro capítulo, mais raro ainda. Ela se motivou a seguir o mesmo caminho. Nao se trata de uma pessoa, mas de mim mesma, eu como alguém que… nao só eu.
A gente acorda morto de ressaca, a Ci também. Vi um bilhete em baixo da porta: “Bonitos, se quiserem a gente pode cozinhar algo assim que eu voltar da caminhada”. E foi assim que começou. A gente tem um meio-irmao agora a cada findi. Cozinhamos com o sol lindo de Murcia. 3, 4 ou 5 da tarde. Aliás, começamos a cozinhar comida de casa. Carne, batata, arroz de forno, purê, essas coisas que nao fazíamos antes. Pena que a Eva já nao pode experimentar nossa gastronomia. Fomos muy sofisticadas nos meses passados. Comidas rápidas, frescas com ingrediente especial. Hora de ahorrar. E de perder peso também. hahah
No primeiro findi. Fevereiro? Um Musik reggae muito louco. Semana de provas. Madrugadas na biblioteca. Expectativa de como ia ser com ele, depois de tanto tempo longe e sem nenhuma ligaçao sentimental. Com ele, sem a Eva, em Barcelona? Mil teorias. Mil negaçoes precipitadas. Mulheres. Um Parlamento Andaluz. Uma botella de vino da casa, um plato de jamón con queso. Um jantar a dois. De pé, na rua, com todos os guardanapos pelo chao, España. Muita conversa. Um flagra do Lolo que ia colocar o lixo. O quarto da Eva no antigo piso tinha uma porta que dava pro corredor do lixo. Coisa linda. Ela era tao desorganizada que deixava todas as calcinhas e sutias atirados pelo chao. Claro que paguei por aquilo que nao fiz. Dá igual. Ela é tao nenéim que depois de também entrar no quarto correu pro meu e disse pra Cintia “ciiiiiiiiiiii, no sé que ha pasado, pero hay bragas y sujetadores por todos los lados”. E era tudo dela. Sério, que saudades.
Outro findi. Despedidas. Festas loucas, provas ainda. A Ci tinha ido pra Portugal. Pensávamos ser os últimos dias com as 3 reunidas. Até que a Eva chegou na biblioteca com uma cara de pasma e me disse: me vulevo a Francia, tengo dos semanas de clase… pero luego MÁS DOS DE VACACIONES! Vamos viajar. E foi aí que nasceu bruxelas e amsterdam. Logo corremos, paramos de estudar, easyjet, ryanair, chama o Tom, vamos tomar um café, ver disso. Foi lindo acordar domingo, dia 6, com Clocks. Eu, ele e ela, tipo larvinhas, ainda bêbados, tipo irmaos, com aquele sol, com aquelas zilhoes de lembranças… de todas as manhas que despertamos com Coldplay e muesli de avelanas. Eu virei pro lado, minha rubiazinha chorava… eu me lavei, nao podia acreditar que era o último dia. Rodoviária… mae… aquela história de antes. Costurando.
Depois disso vieram outros murcias larvas cooking findi days. Mais Parlamento Andaluz. Conhecemos os chefes dele, de quando ele fazia estágio em Murcia. Gente louca, incríveis. Ele nos levou pra cantos que nao conhecíamos da Cidade… tudo foi mudando de cor. Sem perder o colorido, mas com outras pinceladas. Outra Bruna, mesmo com o clichê de dizer, assim mesmo a mesma.
Tem alguém cantando no chuveiro. Escuto aqui da sala. Intervalo da partida. Marseille fez um gol no primeiro tempo.
Que paz estranha, mesmo depois de ler uma mensagem da prima dele que dizia “fico feliz por saber da tua namorada”.
?????????? Talvez eu esteja com muita ressaca pra raciocinar. Assim mesmo sinto essa foto como uma… despedida.

sem revisao
Rarísimo. Sentada num sofa, limpo. E sozinha. Nao tem mais a terraza, nao tem mais os guris jogando play, nao tem o Tommy fumando na cozinha, nao tem mais os colchoes no chao, as roupas no armário. Nao tem mais a Eva. Tenho um quarto só para mim. Tenho um verbo novo, larvar. Tenho quatro malas, uma mochila, muitos sacos plásticos, dois sacos de dormir, um travesseiro. Falta buscar a comida no apartamento antigo. Deixar a chave.
Viví quase 5 meses com um grande filho da puta. A pessoa mais desnecessária que já conheci, ao menos uma das mais. Nao tava mais acostumada com esse tipo de gente. Se trata de um cara de 30 e la vai pedra, que nunca vi entrar no banheiro para tomar banho – e ninguém viu. Acontece que quando se vive com um grande filho da puta se perde um tempo filho da puta falando das filha da putagem que o filho da puta fez. O Lolo é o grande filho da puta. E nem acredito que ele tem um espaço nas minhas memórias. A história é tao complicada que dá preguiça de explicar.
A última noite. Eu senti meu peito dilacerar naquele apartamento. Nao tinha mais o cheirinho, as cores, nada, de sempre. Eu tinha larvado até as 3 da tarde. Me despedido de uma larva aprendiz às 4. Sentia também o peso da despedida de um dia atrás, da Eva, do Tom, do Max. A Cíntia nao estava lá. Tirei o colchao de casal do chao. Ficou só meu. Comecei a despencar as coisas do ármario. Revirar as gavetas. Olhava cada centímetro daquela habitación. Enxergava cada desayuno tomado sobre os colchoes, cada tarde, mas cada tarde mesmo, realmente significativas de dormidas eternas com o sol nas pernas. Com a Eva e seu ordenadorzinho ali. Com a Ci na escrivaninha tentando estudar. Eu de ressaca, ou eu desfazendo mala, ou eu fazendo mala, ou eu morta depois de uma viagem, ou eu… De qualquer forma, escutando as musicas da gente. Murcia’s afternoon. Murcia’s morning. Nao me canso de falar disso. Muita banana com chocolate. Muita sopa em caneco. Muito papel de nariz de Eva pelo chao. Lembro de um dia que a gente queria aprender naoseique e que assistimos um vídeos pornô super tecnica e didáticamente. Interessante. E a Eva, pequena e amada, foi para cozinha e voltou depois de 10 minutos com bananas com cobertura de chocolate e disse: juro que nao é pelo tema, mas é que essa sobremesa é a melhor, lo siento gurias. Ahahahaha Como nao morrer de saudades. Me diz. Foi uns dias antes do natal. Como tudo mudou drasticamente de lá para cá. Naquela época eu ia ter um encontrico, hoje virei uma larva. Hoje estou nesse sofá. Hoje mesmo eu deixei de dizer: “Nao sei o que pode acontecer nesse meio tempo…”. Hoje eu resolvi ver antes de dizer qualquer coisa. Hoje eu estou escutando a playlist que a Eva deixou para mim num pen drive, dentro do short que amei na vitrine, junto com um perfume e uma carta linda. Um mix de murcia’s morning com afternoon. De cravar.
Ver a Lauren e sua faixa de “cheer leader do ano” entrando no meu quarto e eu saindo tipo cao arrependido foi para fuder. O Lolo é filho de uma puta. Eu queria atirar cocô nele. Definitivamente penso que vou morrer de sede nesse exato momento. Mas carreguei tanta coisa hoje, e o sofá se adaptou tao bem nas minhas costas, que dóem tanto, que nao vou conseguir descer no chino para comprar cerveja. Mas precisaria muito. Por que a Ci nao chega logo? Ela também mudou pra esse apê. Ela tava em Portugal. Eu tenho que tomar banho, mas nao sei como ligar o chuveiro, nem como puxar a descarga. Além disso, a Luci, da Bélgica, nao tem nem ideia de que eu cheguei… quando chegar da festa vai ficar apavas com quantidade de malas pela sala. Nem meu quarto sei qual é. Esse filho da puta de corretor ortográfico em español tá me fudendo. Nao é a toa que o Tommy insiste em dizer que sou o pomo da vulgaridade das linguas. Aliás, noite passada dormi no quarto prisao sem janela dele. Mesmo depois de saber das inúmeras noites de amor que ele teve naquele colchao. Uma em especial com o alemao novo no findi passado. A Eva e o Matt, que dormiam no quarto do lado, escutaram. Findi muito sexual naquele piso.
Sobre o vídeo: é isso que eu estou deixando hoje. Como nao chorar ages…
Em 5 dias a Eva vai embora. É o caos interior, o chao caindo, o teto voando.
Kick the bucket faz parte de uma das playlist que ela fez pros dias de Murcia. Murcia’s afternoon. Larvas, livros, facebook e música.
E todos sentem a dor do adeus, e ninguém quer, e dá vontade de começar de novo. Fazer tudo igual ou pior. Muito pior.
All the girls kick the bucket in the end! The end!
And the boys kick the bucket in the end! The end!
O efeito final de Erasmus é devastador. Que sede de vida tem essa gente.
E de álcool. Giorgio disse: “um dia sem ressaca é um dia perdido”. Esse é o nível.
Juro que nao sei o que esperar ou imaginar o que vem pela frente. Parece que foi ontem que entrei no trem “Barcelona-Murcia” com uma ressaca da porra, com o corpo de banho de água de mar, cabelo duro, short rasgado e camiseta toda fudida. Sem ter ideia do nome da rua que eu ia morar. E agora, José?
Eu tinha pedido um piso roquenrou, e o que ganhei foi a vida jogada no liquidificador com toneladas de alegria e de surpresa. E muita sorte. Muita. A Cí e a Eva ajudaram a abrir a tampa do copo em movimento. Por tudo que é lado. Sujetadores arriba, chicas. Obrigada is not enough.
Música, suerte y embriaguez, na sua mais bonita significaçao.
Favor nao tirar o liqui da enchufa nunca.
Bilbioteca da uni. 0:48min. “botellón” pré Musik Reggae.
Eu e Cíntia tentando estudar.
Eu me procupo com a nova super guapa, alema, que chegou em Murcia. Quero chegar em casa antes que ela faça um estrago. Comento a respeito.
Cíntia, brasileira com decendência alema que faz curso de alemao: “ai sabe, eu tô louca pra dá um pau numa alema. Nao me descem….”
?
Murcia.
X: Me gustaria mucho estudiar filosofia ahora.
Y: yo, fisiología. hehé.
Berlim.
Y: Queria muito beijar hoje.
Z: Eu acho que vou limpar minhas meias.
?